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Dona Geralda: Um exemplo de coragem e perseverança no cooperativismo do Amazonas

Geralda Izidorio Cunha, sócia fundadora da Cooperativa Aliança

Geralda Izidorio Cunha, sócia fundadora da Cooperativa Aliança (Foto: Priscilla Torres/Coopcom)

Entre ‘montanhas’ de materiais recicláveis, debaixo de sol ou chuva, quem passa na Rua Frei José dos Inocentes, no Centro de Manaus, pode observar uma senhora de pequena estatura, corpo franzino e cabelos ‘prateados’ pelo tempo. Ela calça botas de borracha para proteger seus pequenos pés de acidentes. O seu olhar é atento aos riscos, seus movimentos são rápidos e contínuos ao escalar destemidamente as altas ‘montanhas’ em busca de produto para reciclar. Nesta rotina diária já se vão 15 anos reciclando materiais sólidos.

Quando percebeu a aproximação da equipe de jornalistas, a mulher meio desconfiada fez uma breve pausa no seu trabalho e se aproximou devagar. Com semblante tímido e sereno, cumprimentou os repórteres e, um pouco acanhada, se colocou à disposição para uma breve entrevista, onde iniciou o relato de sua trajetória de vida. Suas colegas de trabalho ao perceberem a senhora sendo entrevistada se aproximaram e em tom de brincadeiras disseram: “Aí colega, agora você virou celebridade!”. Ela responde o gracejo com um sorriso tímido e amigável.

O nome da senhora é Geralda Izidoro da Cunha que, por trás de um sorriso tímido, ainda insiste em tentar esconder o pulsar acelerado de um coração forte e voluntário que carrega como sinônimo de vida aos 65 anos dos quais 15 dedicados à profissão de catadora de materiais recicláveis no Centro da cidade de Manaus. Dona Geralda, como é conhecida, é uma mulher de educação refinada e de um nível de humildade raro em um ser humano, apesar da vida sofrida não ter lhe dado oportunidade de estudar como gostaria.

Migrante de Coari, município do Amazonas, região Norte do Brasil, localizada às margens do rio Solimões, entre os lagos Mamiá e Coari, a 444 km em linha reta de Manaus, onde trabalhava como carvoeira, fazendo caieiras para ajudar no sustento da família, dona Geralda chegou à capital amazonense no ano 2000 com a esperança de conseguir novas oportunidades de trabalho para criar seus quatro filhos que, há época, eram crianças. Ela começou suas atividades em uma associação de catadores no Centro da cidade. Hoje, dona Geralda é cooperada fundadora da Cooperativa de Catadores Aliança do Amazonas.

Ela lembra que quando chegou a Manaus, aos 42 anos de idade, percebeu as dificuldades que os camelôs enfrentavam com o acúmulo dos materiais recicláveis e se propôs a trabalhar de forma voluntária, varrendo ruas do Centro Comercial de Manaus para ajudá-los na limpeza. “Foi aí que tudo começou na minha vida, e também tive a oportunidade de mudar o rumo da vida da minha família”, conta.

A catadora lembra ainda que através dos seus filhos conheceu as atividades da associação e lá começou a reciclar os materiais e a vendê-los para gerar renda. Anos mais tarde, foi constituída a Cooperativa Aliança, que trouxe uma visão diferenciada na vida dos catadores do Amazonas. “A cooperativa é hoje o meio que encontrei para sustentar a minha família, e veio como uma grande ajuda para todos, visto que a minha idade já está avançada, e as oportunidades no mercado de trabalho vão ficando cada vez ainda mais escassas”, argumenta.

Dona Geralda afirma que os catadores exercem um papel fundamental na sociedade e para o meio ambiente. Eles, em sua opinião, fomentam o trabalho de reciclagem da sociedade, visto por eles como “trabalho de formiguinhas”, ajudando a reduzir a emissão de gases tóxicos na atmosfera, além de desempenhar uma logística melhor para o trabalho dos recicladores. Apesar disso, segundo ela, todo ano os catadores passam por dificuldades, principalmente quando cai a venda no comércio, e o Polo Industrial entra em crise. Por estes motivos, os catadores sempre estão procurando alternativas para coletar materiais.

Dona Geralda conta que em 2009 a PCE, empresa que compra o material da cooperativa, sofreu um incêndio e os demais catadores ficaram cerca de três meses sem ter para onde vender sua produção. “Foi um dos momentos de maior dificuldade que enfrentamos na Cooperativa”, disse. Dona Geralda entende que, para alcançar uma estrutura mais forte e ter mais êxito nos negócio, a economia solidária teve de entrar em ação, de forma que a sociedade doe seus resíduos aos catadores para que eles possam fazer a coleta seletiva.

Ela conta que a Aliança é uma das primeiras cooperativas de catadores do Brasil e, por esse motivo, trabalha com o objetivo de conseguir maiores oportunidades no mercado. Ela diz que o sistema cooperativista está avançando a cada dia no Estado, mas, mesmo assim, ainda falta muita estrutura em relação a equipamentos para os cooperados exercerem melhor suas atividades, bem como apoio do Poder Público.

“Nós buscamos apoio do Sistema OCB/Sescoop-AM para conseguirmos uma estrutura mais sólida que possa oferecer às futuras gerações uma boa base na qual haja segurança e qualidade de vida neste ramo. Hoje como cooperativa, os sócios visam beneficiar o material reciclado e agregar valor, investindo em equipamentos para melhorar o processo dentro da nossa atividade. Eu procuro ser uma força atuante e participativa dentro da instituição, porém tenho a certeza que o caminho ainda é muito longo para desempenhar melhor a minha função na sociedade”, avaliou.

Dona Geralda é considerada pelos seus colegas a grande conselheira e braço forte da cooperativa. Ela participa de todas as reuniões e acompanha os trâmites da lei, mostrando o valor do trabalho aos cooperados. Para os mais novos, ela é considerada na cooperativa a “mãezona”. Muitas vezes os orienta a desempenhar da melhor maneira possível suas funções. Em tom de descontração, seus colegas falam que o traço mais marcante dela é ser forte e “brigona” por seus direitos.

A catadora afirma que o mercado da reciclagem é muito instável. Ela diz que no momento apenas uma empresa está comprando a produção da cooperativa, e a empresa se encontra em crise. “Nosso trabalho é feito em uma engrenagem bastante delicada, onde uma rota mal feita pode causar um enorme prejuízo para o catador. Eu me considero uma pessoa forte, já ‘carreguei’ sozinha carrinhos lotados de materiais pelo centro da cidade. Cheguei a reciclar cerca de cinco toneladas de papelão por semana. Por conta do esforço do trabalho, adquiri muitos problemas de saúde, mas nunca desisti. A reciclagem é meu único meio de sustento. Com a minha profissão, criei meus filhos e netos. Eu preciso dizer às futuras gerações que elas podem viver dessa honrada e árdua atividade, sem ter vergonha e se considerar inferior”, finalizou dona Geralda.

Política Nacional de Resíduos Sólidos – Manaus só tem 1% de coleta seletiva e é a única cidade em toda a região Norte que está caminhando como determina a Lei 12.305. Homologada no dia 23 de dezembro de 2010, a Lei dos resíduos sólidos levou cerca de 20 anos para ser criada. Antes disso, foi discutida com os catadores e, há quatro anos, está em vigor para auxiliar no processo de reciclagem.

A Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), é atual e contém instrumentos importantes para permitir o avanço necessário ao País no enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos.

Prevê a prevenção e a redução na geração de resíduos, tendo como proposta a prática de hábitos de consumo sustentável e um conjunto de instrumentos para proporcionar o aumento da reciclagem e da reutilização dos resíduos sólidos (aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reaproveitado) e a destinação ambiental adequada dos rejeitos (aquilo que não pode ser reciclado ou reutilizado).
Institui a responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos: fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, o cidadão e titulares de serviços de manejo dos resíduos sólidos urbanos na Logística Reversa dos resíduos e embalagens pós-consumo.

Cria metas importantes que irão contribuir para a eliminação dos lixões e institui instrumentos de planejamento nos níveis nacional, estadual, microrregional, intermunicipal e metropolitano e municipal; além de impor que os particulares elaborem seus Planos de Gerenciamento de Resíduos Sólidos.

Também coloca o Brasil em patamar de igualdade aos principais países desenvolvidos no que diz respeito ao marco legal e inova com a inclusão de catadoras e catadores de materiais recicláveis e reutilizáveis, tanto na Logística Reversa quanto na Coleta Seletiva.
Além disso, os instrumentos da PNRS ajudarão o Brasil a atingir uma das metas do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, que é de alcançar o índice de reciclagem de resíduos de 20% em 2015.

Texto e fotos: Priscila Torres/Coopcom – Cooperativa de Comunicação do Amazonas
Fonte: Portal de Notícias Coopnews